Introdução
Como pode o Deus infinito caber na forma finita de um homem? O que significa dizer que Jesus “esvaziou-se a si mesmo”? Ele deixou de ser Deus ao tornar-se homem? Ou será que encarnou plenamente, mantendo intacta sua divindade? Essas perguntas, tão profundas quanto provocadoras, movimentaram alguns dos maiores pensadores do século XIX e continuam a despertar debates entre teólogos, estudiosos e cristãos sinceros.
Neste estudo, mergulharemos na controversa doutrina do Kenoticismo, uma tentativa ousada de explicar o mistério da encarnação. E ao final, voltaremos ao texto sagrado de Filipenses 2 para confrontar essa visão com as Escrituras.
O Kenoticismo no Século XIX
Definição. O Kenoticismo é uma corrente teológica cristã surgida no século XIX, especialmente entre teólogos alemães e britânicos, que buscava explicar o mistério da encarnação de Cristo com base em Filipenses 2:5-11, onde Paulo afirma que Cristo “aniquilou-se a si mesmo” (do grego ἐκένωσεν – ekenōsen). A palavra kenosis, do verbo grego kenóō, significa “esvaziar” ou “tornar-se vazio”, e os teólogos kenóticos interpretaram esse termo como significando que o Filho de Deus, ao encarnar-se, renunciou voluntariamente a alguns de seus atributos divinos — como onisciência, onipotência e onipresença — para viver plenamente como homem.

Origens e Representantes do Kenoticismo:
Os principais proponentes foram:
- Gottfried Thomasius (1802–1875) – Alemanha. Um dos primeiros a sistematizar a kenosis como renúncia temporária dos atributos divinos não comunicáveis.
- Isaac August Dorner (1809–1884) – Contribuiu com uma perspectiva dialética sobre a união das naturezas de Cristo.
- P. T. Forsyth (1848–1921) – Reino Unido. Influenciado por Thomasius, usou a kenosis para realçar o amor e a entrega de Cristo.
- Outros nomes incluem Charles Gore e Henry Harris.
Esses teólogos foram influenciados pela tentativa de reconciliar Cristologia clássica com os desafios do pensamento moderno e racionalista.
Ensinamentos Centrais do Kenoticismo:
- Autoesvaziamento real de Cristo: Cristo não apenas “escondeu” seus atributos, mas de fato deixou de usar ou possuí-los plenamente por um período.
- Renúncia voluntária: A kenosis foi voluntária, não imposta. Um ato de amor e condescendência.
- União das naturezas: Cristo permaneceu Deus, mas não agia como Deus em sua condição terrena.
- Exemplo moral: A kenosis é vista como paradigma da humildade cristã e autoentrega.
Críticas ao Kenoticismo
Ortodoxia cristã, com base nos credos históricos (como Calcedônia, 451 d.C.), afirma que Jesus Cristo é 100% Deus e 100% homem, sem confusão, mudança, divisão ou separação de suas naturezas.
As críticas principais ao Kenoticismo incluem:
- Risco de heresia – Ao sugerir que Jesus deixou de ser onisciente, por exemplo, a doutrina ameaça a imutabilidade de Deus (cf. Malaquias 3:6; Hebreus 13:8).
- Cristo menos que Deus? – Se Jesus não reteve sua plena divindade, Ele seria um “semideus” durante a encarnação, o que contraria João 1:1,14.
- Problemas na expiação – Se Cristo não fosse plenamente Deus durante sua morte, como poderia seu sacrifício ser suficiente para redimir o mundo?
- Contradição lógica e teológica – A divindade, por definição, não pode ser limitada. Um Deus que deixa de ser Deus não é Deus.

Análise da KENOSIS em Filipenses 2:5-11
Agora, vamos à exegese do texto clássico da kenosis:
Texto: Filipenses 2:5-11 (ARC)
5 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
6 que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
7 mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
8 e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz.
9 Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
10 para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra,
11 e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
PALAVRAS-CHAVE (grego)
- μορφῇ Θεοῦ – morphē Theou: “Forma de Deus” = expressão plena e verdadeira da divindade.
- ἁρπαγμὸν – harpagmon: “Usurpação” = algo a ser agarrado ou retido.
- ἐκένωσεν – ekenōsen: “Esvaziou-se” = esvaziar, aniquilar, abdicar.
- μορφὴν δούλου – morphēn doulou: “Forma de servo” = expressão real de servo, não apenas aparência.
- ὁμοιώματι ἀνθρώπων – homoiōmati anthrōpōn: “Semelhança de homens” = humanidade verdadeira, não ilusória.
EXEGESE
- Verso 6 – Preexistência divina
Jesus é descrito como existindo em forma de Deus, implicando sua natureza eterna e divina. Ele não considerou sua igualdade com Deus como algo a ser usado em benefício próprio (não uma “usurpação”), mas algo do qual poderia abdicar voluntariamente para cumprir o plano redentor. - Verso 7 – O esvaziamento (kenosis)
Aqui está o cerne da doutrina. Cristo não deixou de ser Deus, mas assumiu a forma de servo e a natureza humana. O esvaziamento não foi da sua essência, mas do uso independente de seus atributos divinos. Ele velou sua glória, assumiu limitações humanas, mas nunca deixou de ser Deus (cf. Colossenses 2:9). - Verso 8 – A humilhação extrema
A obediência até a cruz é o ponto culminante da kenosis. A morte de cruz era vergonhosa, mas Jesus a abraçou como expressão máxima de humildade e amor sacrificial. - Versos 9-11 – Exaltação
Após a humilhação, vem a glorificação. A kenosis leva à doxologia. O nome de Jesus é exaltado, seu senhorio universal é proclamado, e Deus é glorificado.

Apologética Contra o Kenoticismo
Como apologeta, é fundamental defender a integridade da doutrina cristológica conforme revelada nas Escrituras e preservada pelos credos históricos. A kenosis, quando mal interpretada, se torna perigosa.
Argumentos de Defesa Ortodoxa:
- Cristo nunca deixou de ser Deus
– João 1:1: “O Verbo era Deus”
– Colossenses 2:9: “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” - O esvaziamento foi funcional, não ontológico
Jesus esvaziou-se de prerrogativas, não de sua natureza divina. Ele velou a glória, mas não anulou a divindade. É o mistério da união hipostática. - A união das naturezas em uma só Pessoa
– Hebreus 1:3: “Ele é o resplendor da glória e a expressa imagem da sua pessoa…”
– A encarnação não subtraiu a divindade; ela adicionou humanidade. - Cristo agia com autoridade divina durante seu ministério
– Perdoava pecados (Marcos 2:5)
– Acalmava tempestades (Marcos 4:39)
– Recebia adoração (João 9:38)
Conclusão
A verdadeira doutrina da kenosis bíblica é uma auto-humilhação voluntária de Cristo, sem perda de essência divina. O Kenoticismo do século XIX, ao tentar explicar esse mistério, caiu no erro de reduzir a divindade de Cristo, algo incompatível com a fé cristã.
A glória da kenosis é esta: Deus se fez homem, não por deixar de ser Deus, mas por amor, para salvar os homens. O verdadeiro esvaziamento é o do coração humilde, que se entrega em obediência, mesmo até a cruz.